Um olhar sobre o valor da vida, das pessoas e do tempo que ainda temos.

Há momentos em que a vida parece andar depressa demais, e nós, sem darmos conta, vamo-nos despedindo de quem fez parte do nosso caminho. Demasiadas partidas, demasiado cedo.

Nesta última semana, estamos a despedir-nos do Vítor Rosa, o nosso “Vitinho” (de Alcanede), e da Isabel Silva (Vale do Carro). Há poucos dias, foi o Vítor Nobre (do Prado). Todos com tanto ainda para viver, todos levados pela doença, todos parte desta freguesia que, pouco a pouco, vai ficando mais silenciosa. E existem tantos, mas tantos outros, que foram embora cedo demais!

É impossível não pensar que o tempo está a passar depressa demais. Quando olhamos à volta, percebemos que muitos daqueles que foram exemplos, que marcaram a infância, a juventude e a vida adulta, vão partindo sem aviso, sem nos dar tempo para agradecer. Ficam as memórias, mas falta o abraço, a palavra, o “obrigado” que ficou por dizer.

Ao mesmo tempo, há quem lute pela vida ainda jovem, com uma força que nos faz sentir pequenos, e que nos lembra que ter saúde é, de facto, uma bênção, a maior de todas.

Tudo isto faz-me pensar no que realmente andamos a fazer com o tempo que ainda temos. Enquanto respiramos, há sempre margem para mudar, para sermos um pouco melhores, mais atentos, mais humanos. Não falo de perfeição nem de discursos bonitos. Falo de atitudes simples: valorizar quem está connosco, respeitar mais, julgar menos, agradecer mais vezes.

Nunca sabemos quem será o próximo. Eu? Tu? Como, nem quando. Mas devíamos pensar um pouco mais nisso e não deixar, de verdade, e não apenas da boca para fora, passar o tempo sem fazer nada.

Os afetos já estavam frágeis antes da pandemia de Covid-19, mas depois ficaram, estão e parecem continuar pelas ruas da amargura. Cada vez existe menos proximidade, mais distância. Fala-se muito, sente-se pouco ou nada.

O mundo já anda em chamas há demasiado tempo, há quem insista em deitar-lhe mais gasolina todos os dias, como se fosse uma corrida para ver quem destrói primeiro. Mas talvez, digo eu, ainda exista alguma esperança, se cada um decidir deixar de lado as falsas promessas e começar, de uma vez por todas, a valorizar o essencial. Podem até ir à missa, mas não precisam se o fizerem com alma.

O tempo não volta. E a verdade é que só podemos cuidar dos outros, abraçar, rir, perdoar e amar enquanto aqui estamos.

Paulo Coelho