No dia 30 de abril de 2026, Paulo e Joana, um jovem casal que decidiu vir viver para o Vale da Trave foram protagonistas de uma iniciativa na Casa do Santo.
A Casa do Santo é a antiga casa de residência do pároco que celebrava atos litúrgicos na capela do Vale da Trave, perdendo-se da memória das gentes deste lugar a última vez que ali residiu um padre. Desde que deixou de servir como residência paroquial a Casa do Santo foi utilizada como casa de aluguer para trabalhadores assalariados agrícolas, sendo este um rendimento da matriz de Alcanede.
Nos princípios do século XX foi vendida em leilão mas, por desconhecimento geral da população, dizem as más-línguas que a Casa do Santo foi perdida ao jogo por um padre numa jogatana de cartas e dessa fama nunca mais se livrou!
No início do século XXI esteve em vias de ser vendida a um estrangeiro mas o presidente da junta de freguesia de Alcanede, Francisco Cordeiro, intercedeu, adquirindo-a para o domínio da esfera pública, pelo seu valor patrimonial histórico e sendo isso um desejo da população.
Em 2020, no âmbito de um acordo de interesse mútuo entre a Junta de Freguesia de Alcanede e o Conselho Diretivo do Baldio do Vale da Trave, Casal de Além, Covão dos Porcos e Vale de Mar, para levar a efeito o asfaltamento da estrada que liga o Vale da Trave ao Centro de Interpretação da Gruta do Algar do Pena, com despesas repartidas, a Junta de Freguesia doou a Casa do Santo ao Conselho Diretivo, considerando que não era uma prioridade sua fazer investimentos nesse edifício.
Em 2021 o Conselho Diretivo levou a cabo limpezas e obras de estabilização nas paredes para evitar a sua deterioração estrutural e em 2024 e 2025 procedeu a obras de requalificação na Casa do Santo.
A Joana e o Paulo viram na Casa do Santo a beleza singela dum edifício singular, idealizando ali o cenário ideal para o dia especial das suas vidas – o seu casamento. Procuraram então alugar a Casa do Santo para esse dia e, para isso, entraram em contacto com o Conselho Diretivo, que decidiu ceder a casa sem qualquer custo.
Desta iniciativa surgiu um interesse comum, uma vez que o Conselho Diretivo tinha como objetivo dotar a Casa do Santo do recheio a condizer com a época da primeira metade do século XX. Estabeleceu-se assim a data do casamento deste jovem casal como uma meta para atingir esse objetivo, o que acabou por levar ao envolvimento de um boa parte da população.
Uma cama de ferro, com colcha bordada a condizer; uma mesinha de cabeceira, com um penico no seu interior; um lavatório de ferro, com pia, jarro esmaltado e toalha bordada; uma mesa com duas cadeiras e talheres da época; uma grade de parede, com louça; uma arca de madeira, para arrumação de roupa; uma braseira para aquecimento; um sem fim de peças decorativas e de iluminação, onde não faltou uma bíblia antiga para leitura e um crucifixo para oração.
Foi tudo peças que fizeram parte do recheio da Casa do Santo, doadas pela população e que foram limpas e restauradas para que a noiva e o noivo se sentissem transportados para uma época dos seus avós. A população esmerou-se porque, como diz o ditado: “enxoval que não vai com a noiva, tarde ou nunca!”
Foi um dia diferente no Vale da Trave e bem passado.
Que o Paulo e a Joana sejam felizes, são os votos da população do Vale da Trave.
Texto e fotos: Luís Ferreira


